quinta-feira, 11 de junho de 2009

SONETOS DO GALDÉRIO (de Alma Welt)

O embuçado (de Alma Welt)

Galdério, ó Galdo, o que é aquilo
Que vimos, embuçado, pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?

“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som meio lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,

Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...

E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável.”

(sem data)


Notas
Acabo de descobrir este notável soneto na arca e embora percebendo-lhe o nítido teor simbolista, impressionada fui perguntar ao Galdério se esse episódio realmente acontecera, se ele se lembrava disso... Galdério confirmou dizendo: "Patroa, si Alma lo ha escrito, es verdad."
Jamais saberei definir os limites entre realidade e invenção no mundo da Alma...

Le mire- escrito assim mesmo, como falam os peões por aqui.
(Lucia Welt)

sábado, 6 de junho de 2009

A forca do umbu (de Alma Welt)
(57)

Plasmado no tronco como um quisto
De um velho umbu a forca gravada
É o lado da estância mais sinistro,
Que descobri em distante temporada.

Questionei ao Galdério a sua causa:
"A forca foi aqui, no casarão
(ele respondeu fazendo pausa)...
No umbu é só do povo a falação".

"Aquela árvore é inocente como nós,
O enforcado foi no tempo dos avós,
Do velho Joachin Welt, o vinhateiro,

Que comprando em ruínas a estância,
Trançou com muita fibra e ganância
A corda do antigo estancieiro."

05/01/2006

Nota
No seu romance A Herança, Alma conta o episódio do suicídio
do antigo estancieiro Valentim Ferro,que, arruinado por
dívidas,tendo vendido a estância ao nosso avô, este o encontrou, na manhã seguinte, enforcado no sotão, pendente de uma corda amarrada na trave do telhado, vestido a caráter com suas bombachas, botas, esporas e pala. Ao lado da banqueta caída sob seus pés, a cuia e bomba esparramadas, com o mate derramado ainda fumegante. Ele tomara o seu chimarrão até o último instante...


A Louca do Pampa (de Alma Welt)
(92)

Vai, Galdério, encilhar a minha égua!
Não vês que estou necessitada?
Se não me trouxeres a montada,
Correrei a pé por uma légua.

E não sei não se voltarei pra casa,
Pois a meta é linha do horizonte,
Que o povo diz que é atrás do monte
E só sei que daqui parece rasa.

Bah! Aperta a cilha, o que queres?
Derrubar-me pra *trazer-me no teu colo,
Como quando desfolhava mal-me-queres?

Bueno, solta a rédea, *gaucho tolo
Vou galopar até virar uma *abantesma,
Não mais podes proteger-me de mim mesma!

05/01/2007

Notas

* "...trazer-me no teu colo"- Galdério, o charreteiro,
caseiro e faz-tudo da nossa estância,irmão da Matilde,
(nossa ex-babá e atual cosinheira) tinha uma grande
devoção por Alma e quando ela era criança costumava
tirá-la da charrete e carregá-la adormecida nos seus
braços, quando vinham de um passeio longo, ou quando
ia buscá-la longe nas suas andanças de guria aventureira.

* gaucho- pronuncia se "gáltcho", à maneira castelhana.
Alma adorava o Galdério e o chamava assim.

* abantesma- Alma gostava desta palavra esdrúxula que significa fantasma.


O tamanho do mundo (de Alma Welt)
(95)

Guria andei sozinha numa estrada
Aqui mesmo na estância, para ver
Aonde ela ia dar, e desastrada
Não cogitei da confusão que ia fazer.

Andei por uma hora e não acabava,
E já passava da hora de almoçar.
Pensei: mais uma hora pra voltar...
E sentando à margem mais chorava.

Então vi o Galdério na charrete
Que a mando do meu pai me procurava
E conhecia muito bem esta pivete

E levantando e enxugando o ranho
Eu disse: "Ah! Galdério, eu não contava
Com que o mundo tivesse esse tamanho..."

06/01/2007


Recordações da guria do pampa (de Alma Welt)
(112)

Quando guria subi no umbu pampeiro
Para ver o mundo lá de cima
Mas logo deparei c'um formigueiro
E perdi por um minuto a auto-estima.

Gritei: "Rôdo, Galdério, me acudam!
Não sei mais descer, estou com medo,
Aqui tem formigas e elas grudam,
E já uma delas me picou o dedo!"

Rôdo, rindo até rolando, retorquiu:
"Bah! Quem te queria ver pelada hoje viu,
Já que estás por baixo sem calcinha,"

"E agora que estás nessa forquilha,
Cuida que não entre formiguinha
Nessa tua rachinha-maravilha!"

12/01/2007


A dama da geada (de Alma Welt)
(155)

Esta noite caiu grande geada
Num amanhecer quase europeu,
E vi a pradaria esbranquiçada
Como se fora neve e como eu

Que saí pela campina e evaneci.
"Branca sobre branco" diz Galdério,
Que rindo quis dizer que me perdi,
Pois que não me leva muito a sério.

Mas respondi no mesmo diapasão:
"Não me viste, ó peão, a cabeleira
Vermelha, produzindo aquela esteira

De cometa fiel nas pradarias?
Era eu, e por certo não sabias
Que era mulher, estrela-guia de peão..."

12/07/2006

Nota
Os leitores que me perdoem se me acham suspeita, como irmã da poetisa, para emitir um juízo como este: creio que estou diante de uma obra-prima do soneto universal, em que pese o sabor regionalista típico da Alma nesta sua fase pampiana.



Palavras ao Galdério (de Alma Welt)
(175)

Galdério, "gáutcho" macho e fiel
A serviço desta Casa e casarão,
Com tua força doce como mel
E tua voluntária servidão,

Como dizer quanto sou agradecida
Pelo teu carinho, ó charreteiro
Que me pegavas no colo adormecida
E confiante em tuas mãos de escudeiro,

Que cuidavas não das armas mas das prendas
Do teu patrão, o fidalgo vinhateiro,
Maestro e colecionador das lendas

Do vinho e do homem verdadeiro,
E que soube desde logo avaliar-te,
A ti que fazes do servir a tua Arte?

12/01/2007


Estórias do Galdério (de Alma Welt)
(200)

Galdério, meu querido charreteiro
Anda sempre a caráter, de bombachas
E um punhal de prata sob faixas
Que lhe cingem a cintura qual toureiro.

Mas nunca esse punhal ele tirou
E oferecendo-me uma fruta na charrete
Pediu ao Rôdo emprestado o canivete
E percebi o olhar que este lançou.

Então, mais tarde lhe roguei
Que findasse o mistério do punhal
Retirando-o da bainha, afinal.

Ele o fez, e ao meu espanto respondeu:
"Quando inteiro peleiou um rival meu
Mas a metade ficou nele, e a enterrei."

19/11/2006


Estória da Matilde (de Alma Welt)
(199)

Matilde, que agora reza e reza,
Houve tempo em que abria para mim
E contou-me que dentro dela pesa
Um remorso imenso e sem fim.

Ela deixara um filho natural
Num orfanato, só, por indigência,
Mas ao buscá-lo em penitência,
Soube de algo terrível e fatal:

A criança se fora num inverno
Em que o minuano assaltara
O casarão gelado e a levara...

Então Matilde andou pelo Inferno
Por dez anos até que o Galdério
A encontrou a dormir num cemitério.

12/01/2007



A Escolha (de Alma Welt)
(212)

Vinha pela estrada o ancião,
Imensa barba branca e um mistério,
Meu pai o avistou, chamou Galdério
E pediu-lhe pra trazê-lo ao casarão.

Diante da família, o olhar perplexo,
Muito gasto daquele pobre ser
Chegava a compungir, a comover,
Parecia tirado do seu nexo.

E depois de tomar a boa sopa,
Balbuciando pediu pra retornar
Ao leito da estrada, e caminhar.

Pois embora aceitasse alguma roupa,
Errar pela estrada até morrer
Era escolha, pra não mais interromper.

29/11/2006

Nota
Fui testemunha também deste fato, e me lembro bem de que Alma reconduziu o ancião até a estrada, acompanhou-o um pouco de braço dado, e depois o deixou afastar-se sozinho, ela parada, olhando. Então fui até ela, imóvel no meio da estrada e ela sem se voltar disse:
"Ele é o Tempo, percebeste? Não se pode detê-lo...
(Lucia Welt)


A escolta (de Alma Welt)
(205)

Meu pai era um homem de cultura
Em meio a peões um tanto rudes
Mas isso não causava ruptura
Mas apenas diferença de atitudes

Pois a verdade é que o viam como rei
Para além do patrão estancieiro
E era tão belo e alvissareiro
Percebê-lo, que uma vez até chorei.

Foi quando chegou de uma viagem
E Galdério foi buscá-lo na estação
Com a charrete e uma escolta de peão,

E ele entrou na alameda a cavalo,
Galdério na charrete com a bagagem,
Um a pé e outros dois a ladeá-lo.

04/12/2006


La belle-au-bois-dormant (de Alma Welt)
232

Galdério, meu gaudério castelhano
Por quê não selaste a minha Altéia?
Queres me levar na tua boléia
E pra isso sabotas o meu plano

De sair por aí em disparada
Por onde não vai a tua charrete
Que roda obediente pela estrada
E não pode seguir a tua pivete

Que gostarias rever-me como outrora
Com a cabeça no teu peito, antes da janta,
Me recolheres como fora bela Aurora

Pra adentrares o jardim, logo a varanda,
Comigo nos teus braços qual infanta
Posta em sossêgo, leve, muito branda...

12/01/2007



RIP* (de Alma Welt)
237

Vem por aqui, Galdério, logo à frente
Vou te mostrar o que encontrei:
Uma cruz estranha que nem sei
Se é cristã ou coisa diferente.

Vê, gravada nesta laje, aqui, assim,
Algo muito gasto está escrito.
Será o túmulo violado e proscrito
Do antigo estancieiro Valentim?

RIP está gravado e se percebe,
O resto é posterior, mal redigido,
E suponho por alguém que ainda bebe

O vinagre do que, mal digerido,
Não sei, Galdério, mas o sinto,
Deixou seu travo em nosso vinho tinto.


(sem data)


Nota
* RIP- Iniciais do mote latino "Requiescat in Pace" (Repousa em paz), que era inscrito antigamente em alguns túmulos.

A recorrência nos Sonetos Pampianos da temática referente ao estancieiro Valentim Ferro, que vendeu a estância (depois chamada Sta Gertrudes) para o nosso avô Joachim Welt e em seguida se suicidou enforcando-se numa trave do sótão do casarão, faz-nos perceber como esses fatos assombravam o espírito sensível (e até sugestionável) de minha irmã, que considerava, percebe-se, que havia uma culpa persistente pesando sobre a nossa família, que plantou o seu vinhedo sobre esse túmulo amargo. (Lucia Welt)


A arca (de Alma Welt)
238

Qualquer poema meu ou texto escrito
Atiro numa arca muito antiga
Que contém de mim o feito e o dito,
Também algum mal-feito, há quem o diga:

Minha Mutti já não mais quer saber
O que eu registro do que vivo
Com receio de chocar-se ao perceber
O quão revelador é aquele arquivo.

E então ordenou ao meu Galdério
Que queimasse aquela urna arcana
Ou enterrasse além no cemitério

Esquecida de que o nosso charreteiro,
Bem mais fiel a mim que à Açoriana,
Não trairia o seu pampa verdadeiro...


25/08/2006

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Nota
Encontrei, surpresa, este soneto inédito que se refere à própria arca dos escritos da Alma, de que eu sempre conheci a existência secreta e da qual fui aliada desde guria, ajudando-a mesmo, junto com o Rodo a escondê-la da Mutti. Entretanto Alma a mudou de esconderijo por receio de nossa mãe, que suspeitou de que o Galdério não a havia queimado (pois Alma não fingiu suficientemente um grande sofrimento e revolta) e a procurava. E eu só vim a redescobrí-la tantos anos depois da morte da Mutti e alguns meses depois da morte da Alma.
Quanto ao soneto, fui logo mostrá-lo ao Galdério, e o "galtcho" ou "Galdo", como a Alma o chamava, com o papel na mão, vi a folha vibrar, tremer. Creio ter visto um brilho no olho do gauchão fiel, que se manteve calado, nada comentou...
(Lucia Welt)


As ausências do Galdério (de Alma Welt)
253

Galdério, factotum incansável,
Vem ultimamente se ausentando
Com a sua charrete indispensável
Nos tempos do Vati aqui reinando.

Então hoje cedo fui mais fundo:
"Galdo, me permite perguntar
O que tanto fazes lá no mundo
Onde "gáltcho" como tu não tem lugar?"

"Não foste tu mesmo que disseste
Que querias morrer sem mais deixar
A planura onde está tudo que preste?"

Mas o gringo sério logo emenda:
"Princesa, tenho ido alimentar
O peão de quem mi madre foi a prenda."


09/11/2006


Perigos do não mirar (de Alma Welt)
255

Dedicarei ao Galdério uma loa
Por peitar um peão desembainhado,
Que ao que parece o queria degolado
Por ser fiel amigo da patroa.

Então, assim que estava desarmado
Interpelei o peão severamente:
"Por quê estás assim tão exaltado,
Não vês que o Galdério é boa gente

E repete as ordens que lhe passo?
Como a todos, pra que ninguém se fira
Acaso não te dou o mesmo espaço?

E o gaúcho envergonhado revelou:
"Não suporto saber que tu le mira
Nos olhos e os meus tu nunca olhou!"


(sem data)



Pietà sulina (de Alma Welt)
273

Vinha o gaúcho troncho em sua sela
Ferido por adaga gravemente,
Na mão direita a rédea como vela,
A outra mão a segurar o rubro ventre.

E estacando o seu pingo emfim cedeu,
Fez um aceno vago e foi caindo
Nos braços do Galdério que acorreu
A ampará-lo como a um guri dormindo.

E enquanto a alma ia sem adeus
Eu gravei a cena em minha retina
Como uma Pietà leda e sulina

Pois agora já estava entre os seus
Como o outro na estação divina
Fixando a morte insólita de um deus.


(sem data)



A leitoinha (de Alma Welt)
274

Galdério, prepara a tua charrete
Que hoje não quero cavalgar!
Leva-me como quando eu tinha sete
E dormia no teu colo ao regressar

E me tomavas nos braços com candor
Ao salão me transportando sem eu ver,
Me punhas sobre a mesa por humor,
Dizendo: “Hoje leitoinha vamos ter!”

E eu já despertada mas fingindo
Não resistia e gargalhava afinal
Sem ousar abrir os olhos, sensual,

Pois sentia o teu olhar tão inocente
Percorrer meu pequeno corpo lindo
Que queria ser tomado docemente...

09/07/2006

Nota
Fiquei estarrecida ao descobrir hoje este soneto na arca da Alma. Senti-me primeiramente perplexa, depois chorei muito.
Ficou claro para mim, de repente, o gesto insólito, aparentemente incompreensível de Galdério ao pegar o corpo nu da Alma, quando de sua morte afogada no poço da cascata, e vir com ele nos braços como um sonâmbulo para depositá-la sobre a mesa do salão onde começou o seu espantoso velório nu, até ser interrompido pela irupção indignada de Matilde cobrindo-a com uma toalha de mesa, como um sudário.
Vide o blog "Vida e Obra de Alma Welt":(www.almawelt.blogspot.com) onde publiquei, já há tempos, a carta que escrevi na ocasião fatídica, narrando as circunstâncias da morte e do velório de minha amada irmã. (Lucia Welt)



De nuvens e Paciência (de Alma Welt)
293

Aprendi das nuvens as canções,
Suas sutis mudanças de formato,
De peso, tons, e seu contrato
Com o rei dos raios e trovões.

Foi Galdério, o montevideano
Que criado na Pampa oriental
E guiando a charrete ano após ano
Me doava ali seu cabedal,

Sua grande bagagem de experiência
Contemplativa, ali, na sua boléia
Ao som do trotar da Paciência,

Sim, o nome da egüinha atrelada
Que envelheceu sem ter idéia
Do quanto era rica a nossa estrada.


(sem data)


Eu estarei aqui depois de tudo
(de Alma Welt)
305

Eu estarei aqui depois de tudo
Quando voltarem as flores no meu prado,
A macieira a florir no pomar mudo
E o casarão estiver todo arruinado,

Suas paredes recobertas pela hera
E no salão a grande mesa abandonada
Onde um dia quando bem guria eu era
Fui belamente adormecida colocada

Pelo fiel Galdério, também ido
Que com Matilde e seu dever cumprido
Foram prestar contas à patroa

Nossa bela, triste e branca Ana
Que afinal como rainha se coroa
E que já não chamo mais... Açoriana!



12/01/2007

Nota
Acabo de encontrar este belo soneto nostálgico, perdido na montanha de papéis da arca da Alma, e que não encontrei publicado (depois de extensa pesquisa) em nenhum dos conjuntos de sonetos já publicados nos blogs da nossa Poetisa. A verdade é que espero encontrar outras jóias como essa neste espólio grandioso dos manuscritos inéditos de minha grande e saudosa irmã, que estou apenas arranhando com estes 25 blogs.
O curioso é que do ponto de vista contextual este soneto contrasta com o penúltimo que eu coloquei aqui ( o n°35 e último que traduzi para o castelhano: "Não estarei aqui quando voltares... " Mas ambos contêm a certeza de sua morte próxima e a convicção de alguma forma de retorno, mesmo que espectral, o que afinal acabou se confirmando, pois ainda a avistamos intermitentemente vagando por aqui, o que nos confrange e desnorteia, pois nos parece que ela não se libertou de sua vida aqui neste plano ou quer nos comunicar algo que não conseguimos entender. Nossos peões, que amiúde a vêm, a chamam "Alma da Pampa"...



Ecos no casarão (de Alma Welt)
317

De noite percorro o casarão
Por soturnos corredores silenciosos
Mas cheios de murmúrios capciosos
Das memórias do último verão

Quando a casa abrigava a alegria
Dos hóspedes ruidosos e parentes
Que lotavam como fosse hospedaria
Estes quartos agora tão silentes.

Ai! A casa já suspira de carência,
E chora e geme em sua demência
Tremelicando ao vento da campina!

Só restou Matilde, a mais fiel,
Galdério na charrete, sua sina,
E esta Alma que vaga, assim, ao léu...

16/01/2007

Nota
Encontrei nesta manhã de domingo, na arca da Alma, este belo e triste soneto, que denuncia o estado de espírito da Alma nos seus últimos dias. Infelizmente eu estava com meus quatro filhos (dois da falecida Solange, nossa irmã mais velha)em Alegrete e nada pude fazer por minha irmã, que eu não imaginava assim, tão desesperada... (Lucia Welt)



Adeus Pampa (de Alma Welt)
338

Pampa amado de minha juventude,
Da guria que fui e ainda sou!
Dói-me demais saber que não mais pude
Prorrogar os prazos que me dou.

Devo partir, eu sei, chegou o fim,
O Grande Gáltcho recusou a apelação,
A última que fiz, não só por mim
Mas por meu amor e meu irmão.

Por Lucia, Matilde e o bom Galdério,
Pelos guris no jardim do casarão,
E o bosque que me foi um refrigério.

Ah! A biblioteca imensa e amada
Também sala do "piano do patrão",
E, ai! Rodo, nossa alcova na mansarda...

18/01/2007


O vinho e o Graal (de Alma Welt)
347

Percorrendo em vigia meu vinhedo
Tive linda visão e inusitada:
Um cacho isolado qual segredo
Pois que sua cor era dourada.

"Um cacho de ouro!"- exclamei.
"Galdério! Vem ver o que encontrei!
Vê se é uma praga, anomalia
Que possa destruir toda a valia

Da safra e também do nosso esforço!
É dente de pirata ou belo corso?
Deixo contigo juízo e decisão."

“Alma”- respondeu sábio o peão-
“Então não vês que o ouro é o sinal
De que temos o vinho e o Graal?”

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar este curioso e encantador soneto, de acentuado pendor simbolista. E me lembrei de que na época, eu morando em Alegrete, ouvi comentários sobre o espantoso cacho dourado no meio do vinhedo, que se tornou uma das lendas da Alma e de nossa estância. (Lucia Welt)

Largo al Factotum * (de Alma Welt)


Galdério, factotum desta estância,
Filho dileto da banda oriental*
Do Pampa e de sua circunstância*
Com sua fala um tanto gutural

Tem como uma espécie de mistério
O nome que, entre nós, ele detesta
Por ser ele confundido com gaudério*
Embora não ostente em sua testa

Pois é gaucho do trabalho como poucos
E apesar do desrespeito inicial
Impôs-se com rigor e brados roucos

Pois, irmão mais esperto da Matilde,
Tornou-se o paladino de um graal*:
Alma viva, nem Rosina, nem Brunhilde...*

(sem data)